Repare na lista que está rodando na sua cabeça agora mesmo: comprar o presente da sobrinha até sábado, marcar o pediatra, pagar a conta de luz antes de quinta, repor o detergente e ver se a escola mandou o bilhete da excursão…
Nenhuma dessas tarefas leva muito tempo. O peso está em carregar todas elas na cabeça ao mesmo tempo, o dia inteiro, sem que ninguém perceba que isso também é trabalho.
O trabalho de pensar no trabalho
A socióloga Allison Daminger, da Universidade Harvard, entrevistou casais para entender essa parte invisível da vida doméstica e a chamou de trabalho cognitivo. Ele envolve quatro etapas: perceber que algo vai ser necessário, pesquisar as opções, decidir e acompanhar para ver se deu certo.
Nos casais que ela estudou, as mulheres faziam mais desse trabalho no geral e, principalmente, as etapas de antecipar e monitorar, justamente as que ninguém vê. Como é um esforço invisível até para quem o faz, ele costuma virar fonte de conflito e de um cansaço difícil de explicar.
O retrato brasileiro
No Brasil, os números ajudam a dimensionar o tamanho dessa conta. De acordo com o IBGE, em 2022 as mulheres dedicaram em média 21,3 horas por semana aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas, contra 11,7 horas dos homens. Mesmo entre quem tem emprego, elas dedicavam quase sete horas semanais a mais do que eles.
E essas horas medem só o que se faz com as mãos. A parte de lembrar e vigiar vem por cima, e não aparece em nenhuma pesquisa de tempo.
Por que a mente não desliga
Uma lista que nunca termina mantém a mente em estado de vigilância. Mesmo deitada, a cabeça continua conferindo o que ficou pendente, e aí surge aquela sensação de estar cansada e ligada ao mesmo tempo. Com o tempo, o pavio fica curto e cresce a impressão de nunca estar dando conta.
As redes sociais costumam piorar o quadro. Ali você compara os seus bastidores, com a pia cheia e a agenda atrasada, com o palco dos outros, onde tudo parece organizado e leve.
Tirar a lista da cabeça e colocar na mesa
Um primeiro passo é tornar visível o que é invisível. Durante uma semana, anote tudo o que você pensou sobre a casa e a família, e não só o que fez: o remédio que estava acabando, a reunião da escola. Muitas mulheres se surpreendem com o tamanho da lista no fim dos sete dias.
Com ela em mãos, a conversa sobre divisão de tarefas muda de figura. Dividir de verdade significa passar adiante a tarefa inteira, incluindo a parte de lembrar e acompanhar, e não apenas a execução.
Quando o cansaço já virou esgotamento
Se a sobrecarga já está afetando o sono e o humor, vale buscar apoio. Na psicoterapia, você encontra um espaço em que, pelo menos por uma hora, não precisa lembrar de nada por ninguém, e onde dá para olhar para o que faz você assumir tanto. Com a hipnose, dá para o corpo experimentar, na prática, como é pousar a lista por um momento.
Cuidar de si, nesse contexto, faz parte da conta que mantém a casa de pé.
Leia também: Cansaço que o sono não cura pode ser burnout e Em que fase do estresse você está?
Vamos descobrir juntas o que está travando o seu caminho?
Se você sente que a sua cabeça virou a agenda da casa inteira e não sobra espaço pra você, eu adoraria te acompanhar nessa jornada de descoberta.
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Referências bibliográficas
DAMINGER, A. The cognitive dimension of household labor. American Sociological Review, v. 84, n. 4, p. 609-633, 2019.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Em 2022, mulheres dedicaram 9,6 horas por semana a mais do que os homens aos afazeres domésticos ou ao cuidado de pessoas. Agência de Notícias IBGE, Rio de Janeiro, 11 ago. 2023. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/37621-em-2022-mulheres-dedicaram-9-6-horas-por-semana-a-mais-do-que-os-homens-aos-afazeres-domesticos-ou-ao-cuidado-de-pessoas. Acesso em: 11 mar 2024.






