Uma zebra que escapa de um leão passa alguns minutos com o coração disparado, os músculos em brasa e todo o corpo voltado para correr. Quando o perigo some, ela volta a pastar como se nada tivesse acontecido. Bem tranquila.
O neurocientista Robert Sapolsky, da Universidade Stanford, usou essa imagem para explicar uma diferença importante entre nós e os outros animais. A zebra ativa o sistema de estresse diante de um perigo real e depois desliga. Nós conseguimos ativar o mesmo sistema só de pensar no boleto ou na conversa que ainda nem aconteceu. E conseguimos manter esse sistema ligado por semanas.
Quando o alarme não desliga
O sistema de estresse foi feito para durar pouco. Ele desvia energia para os músculos, acelera o coração e coloca em pausa tudo o que não é urgente para a sobrevivência, como a digestão e parte da defesa contra infecções. Bruce McEwen mostrou que, quando esse estado se arrasta, o próprio esforço de adaptação começa a desgastar o organismo. É aí que a ansiedade passa a aparecer em lugares onde pouca gente procura por ela.
Os sinais mais comuns
Músculos. Ombros que vivem perto das orelhas, nuca dura, dor nas costas sem esforço físico. A mandíbula costuma travar durante o dia, e muitas pessoas rangem os dentes à noite sem saber. Dor de cabeça tensional, aquela que aperta como uma faixa em volta da testa, é uma das queixas mais frequentes.
Estômago e intestino. Enjoo antes de compromissos, azia, dor de barriga ou intestino desregulado em semanas de pressão. O sistema digestivo é um dos primeiros a sentir quando o corpo entra em alerta.
Coração e respiração. Palpitações, aperto no peito e a sensação de que o ar não completa. Às vezes vêm junto formigamento nas mãos e tontura, que costumam aparecer quando a respiração fica curta e acelerada.
Sono. Dificuldade para pegar no sono, despertar no meio da madrugada com a cabeça já funcionando ou acordar cansada mesmo depois de muitas horas na cama.
Imunidade. Resfriados que se repetem e herpes que volta justo nas fases difíceis. O estresse prolongado desregula a defesa do organismo, e o corpo fica mais vulnerável.
Antes de concluir que é ansiedade
Todos esses sintomas também podem ter causas físicas, algumas delas sérias. Por isso, o primeiro passo é uma avaliação médica. Quando os exames não explicam o que você sente, ou quando os sintomas pioram junto com as fases de pressão, vale considerar que a ansiedade pode estar falando pelo corpo.
Ensinar o corpo a desligar
Uma pergunta ajuda a começar a observar essa ligação: em que momentos da semana o sintoma aparece, e o que estava acontecendo antes dele? Muitas vezes a ligação aparece depois de alguns dias prestando atenção.
Na psicoterapia, você descobre o que mantém o alarme ligado e o que pode mudar na sua forma de lidar com as pressões do dia a dia. A hipnose pode ensinar ao corpo, por experiência própria, como é sair do modo de alerta e voltar a um ritmo mais tranquilo, como a zebra depois que o leão vai embora.
Leia também: Seu intestino sente a ansiedade antes de você, O suspiro fisiológico funciona mesmo contra a ansiedade? e Cansaço que o sono não cura pode ser burnout
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Referências bibliográficas
MCEWEN, B. S. Physiology and neurobiology of stress and adaptation: central role of the brain. Physiological Reviews, v. 87, n. 3, p. 873-904, 2007.
SAPOLSKY, R. M. Why zebras don’t get ulcers. 3rd ed. New York: Henry Holt, 2004.






