Vamos começar com uma cena bem típica: reunião importante depois do almoço. Você preparou tudo e dormiu cedo. Comeu alguma coisa leve porque sabia que ia estar nervosa, e mesmo assim o intestino resolveu ter uma opinião própria sobre o assunto. Ele se manifesta justamente quando você mais precisa estar com foco e presença. O seu corpo está em um ritmo completamente diferente do que você escolheu ter.
Quando isso se repete, quando toda situação de exposição traz junto essa sensação de perda de controle, vale entender o que está acontecendo de verdade.
O nervo que conecta tudo
Entre a sua cabeça e a sua barriga corre um nervo comprido, o vago, que leva recados nos dois sentidos o dia inteiro. A terapeuta americana Deb Dana, que trouxe a Teoria Polivagal para a linguagem do dia a dia, explica que é por esse caminho que o intestino fica sabendo que o corpo entrou em alerta, muitas vezes antes de você perceber. Basta o sistema nervoso farejar perigo, real ou não, para desviar energia ao modo de sobrevivência, a famosa reação de luta ou fuga. A digestão para ou vai na direção oposta. Cada pessoa tem seu padrão de resposta, mas a inteligência por trás é sempre a mesma…
O corpo está sendo lógico e coerente com aquilo que aprendeu! O problema real aparece quando essa resposta se torna tão automática que você não consegue mais se diferenciar dela, quando o intestino já entrou no modo de alerta antes mesmo de você saber conscientemente que está nervosa.
Por que convencer a cabeça não resolve
Van der Kolk passou décadas mostrando que o corpo registra o estresse num lugar que o pensamento sozinho não alcança. Você pode se convencer de que a reunião é segura e de que já fez isso centenas de vezes. Mas… não é bem assim! O intestino não compra nenhuma dessas histórias porque ele funciona em outro idioma. A comunicação dele não passa pela lógica.
Por isso a mudança real precisa encontrar o corpo onde ele está, e não tentar convencê-lo pelo caminho das ideias.
O que ajuda nos três minutos antes
Se a reunião é agora ou daqui a pouco, tem algo que funciona rápido e tem respaldo científico para isso. Tente fazer esse exercício:
- Inspire contando quatro segundos
- Segure dois segundos
- Expire em seis segundos
… e repita durante três minutos.
Esse tempo pode ajudar a acionar o freio do nervo vago e avisar ao intestino que dá para baixar a guarda. Enquanto faz isso, coloque atenção nos pés em contato com o chão e nomeie em voz baixa o que está sentindo no corpo. Matthew Lieberman e colegas mostraram que nomear a emoção reduz a ativação da amígdala de forma mensurável, e isso faz diferença real no momento agudo.
Essas práticas funcionam bem para regulação imediata. Quando a ansiedade é antiga, quando tem raiz funda e acompanha você há anos, a respiração regula a intensidade mas não mexe na origem.
Onde a hipnose chega
Você não consegue mandar seu intestino relaxar porque ele não obedece a comandos conscientes. Ele funciona em um canal completamente diferente. A hipnose trabalha na linguagem que o sistema nervoso realmente entende: padrões, imagens, associações, estados corporais. Em foco hipnótico é possível acessar e ressignificar respostas que foram aprendidas ao longo de anos, desde situações que você nem lembra direito. A equipe de Wendy Gonsalkorale, em Manchester, acompanhou por anos pacientes com síndrome do intestino irritável tratados com hipnose e viu que os benefícios se mantinham ao longo do tempo. Na ansiedade, a análise conjunta de estudos feita pela equipe de Kimberly Valentine chegou a uma conclusão parecida.
Parece mágica, mas é só uma conversa com a parte do seu sistema nervoso que nunca para de trabalhar.
Vamos descobrir juntas o que está travando o seu caminho?
Se você sente que a ansiedade já chegou no seu corpo e aparece justamente quando você mais precisa estar presente, eu adoraria te acompanhar nessa jornada de descoberta.
Ou conheça mais sobre o meu trabalho em: www.julianapupo.com.br.
Referências bibliográficas
DANA, D. Ancorado: como fazer as pazes com seu sistema nervoso usando a Teoria Polivagal. Rio de Janeiro: Alaúde, 2025.
GONSALKORALE, W. M. et al. Long term benefits of hypnotherapy for irritable bowel syndrome. Gut, v. 52, n. 11, p. 1623-1629, 2003.
LIEBERMAN, M. D. et al. Putting feelings into words: affect labeling disrupts amygdala activity in response to affective stimuli. Psychological Science, v. 18, n. 5, p. 421-428, 2007.
VALENTINE, K. E. et al. The efficacy of hypnosis as a treatment for anxiety: a meta-analysis. International Journal of Clinical and Experimental Hypnosis, v. 67, n. 3, p. 336-363, 2019.
VAN DER KOLK, B. O corpo guarda as marcas: cérebro, mente e corpo na cura do trauma. Rio de Janeiro: Sextante, 2020.





