Uma porta bate no fim do corredor e o corpo inteiro dá um salto, muito antes de você entender que foi só o vento. Com isso o coração demora pra retomar o ritmo, e fica a sensação estranha de ter reagido a um perigo que não estava ali.
Pra quem viveu experiências traumáticas, reações assim costumam fazer parte do dia a dia, mesmo quando a lembrança do que aconteceu parece distante ou nem é tão clara.
O que é um trauma emocional, afinal
O médico Gabor Maté propõe um jeito simples de entender: o trauma diz respeito menos ao acontecimento em si e mais ao que ele deixou dentro da pessoa. Por isso duas pessoas podem atravessar a mesma situação e sair com marcas muito diferentes. E por isso também experiências que, vistas de fora, parecem pequenas podem deixar feridas profundas.
Quando o corpo continua em guarda
O psiquiatra Bessel van der Kolk dedicou a carreira a mostrar como o organismo de quem passou por um trauma pode seguir funcionando como se o perigo ainda estivesse por perto. Aparecem o sono leve, o susto exagerado, a dificuldade de relaxar mesmo em lugares seguros, a atenção sempre voltada para a porta.
Em alguns casos surgem muitas lembranças que invadem sem pedir licença, pesadelos frequentes e a evitação de tudo o que lembre o que aconteceu. Quando esses sinais persistem, podem indicar um transtorno de estresse pós-traumático, que merece avaliação de um profissional.
Segurança antes de tudo
O cuidado com o trauma costuma começar pela estabilização, antes de mexer na história. A pessoa precisa primeiro de recursos para acalmar o corpo e de confiança em quem a acompanha.
Nesse ponto, o jeito como a terapia acontece faz toda a diferença. Na abordagem que eu sigo, você é acolhida do jeito que está, sem precisar provar nada e sem pressa. É nesse clima de confiança que as experiências mais difíceis podem, aos poucos, ser colocadas em palavras.
Um recurso simples ajuda nos momentos em que o corpo dispara sem motivo aparente: diga para si mesma, em voz baixa, a data de hoje, o nome do lugar onde você está e a sua idade atual. É um jeito de lembrar ao corpo que aquele perigo pertence a outro tempo.
O lugar da hipnose
Os tratamentos com maior evidência para o estresse pós-traumático, recomendados pela Organização Mundial da Saúde, são as psicoterapias focadas no trauma. A hipnose entra como apoio a esse tratamento, nunca no lugar dele. Uma meta-análise dos pesquisadores Tudor Rotaru e Andrei Rusu encontrou uma redução importante dos sintomas com a hipnoterapia, ainda que com base num número pequeno de estudos.
Na prática, a hipnose pode ajudar o corpo a sair do estado de alerta e a recuperar o sono. Com o tempo, ela também pode ajudar a diminuir o peso que as experiências difíceis ainda carregam. O cuidado está em não usá-la para procurar lembranças esquecidas. A memória se reconstrói cada vez que é acessada, e qualquer busca insistente por recordações, com ou sem hipnose, pode criar lembranças de coisas que não aconteceram. Como a hipnose aumenta a abertura à sugestão, esse cuidado precisa ser redobrado. Por isso, a boa prática trabalha com o que a pessoa já traz, no ritmo que ela consegue sustentar.
Cuidar de um trauma deixa o passado no lugar dele e devolve ao presente o espaço que ele vinha ocupando.
Vamos descobrir juntas o que está travando o seu caminho?
Se você sente que o passado ainda dita as regras do seu bem-estar, eu adoraria te acompanhar nessa jornada de descoberta.
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Referências bibliográficas
MATÉ, G.; MATÉ, D. O mito do normal: trauma, saúde e cura em um mundo doente. Rio de Janeiro: Sextante, 2023.
ROTARU, T. Ș.; RUSU, A. A meta-analysis for the efficacy of hypnotherapy in alleviating PTSD symptoms. International Journal of Clinical and Experimental Hypnosis, v. 64, n. 1, p. 116-136, 2016.
STEIN, L. M. (org.). Falsas memórias: fundamentos científicos e suas aplicações clínicas e jurídicas. Porto Alegre: Artmed, 2010.
VAN DER KOLK, B. O corpo guarda as marcas: cérebro, mente e corpo na cura do trauma. Rio de Janeiro: Sextante, 2020.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Guidelines for the management of conditions specifically related to stress. Geneva: WHO, 2013.






