Depois que a porta bate, vem o silêncio. Logo atrás dele chega o arrependimento: mas por que eu falei daquele jeito? Na hora parecia impossível segurar, e agora, com a cabeça mais fria, a reação parece desproporcional até para você.
Se você se reconhece nessa cena, saiba que ela tem explicação, e que a explicação começa no corpo.
Quando a emoção inunda
O psicólogo John Gottman, da Universidade de Washington, passou décadas observando casais discutirem num laboratório, com sensores medindo os batimentos do coração. Ele percebeu que, quando os batimentos passavam de cerca de cem por minuto, as pessoas perdiam a capacidade de escutar e de resolver o problema. Gottman chamou esse estado de inundação emocional.
Antes dele, o jornalista e psicólogo Daniel Goleman já tinha popularizado a ideia de que, em momentos de emoção intensa, as áreas do cérebro ligadas à reação tomam a frente das que pensam com calma, como num sequestro. Nessa hora, a pessoa até sabe o que deveria fazer. Ela simplesmente não tem acesso a esse saber.
Os sinais de que a enchente está chegando
A inundação raramente chega sem aviso. O rosto esquenta, a mandíbula aperta, a voz sobe, as frases começam com “você sempre” ou “você nunca”. Aprender a reconhecer esses sinais em você é o primeiro passo, porque o momento de agir é antes de a água passar da porta.
Dizer para si mesma “estou ficando com muita raiva” ajuda a criar um pequeno espaço entre a emoção e a reação. É pouco, mas às vezes é suficiente para escolher o próximo passo.
A pausa de vinte minutos
A recomendação mais conhecida de Gottman é também a mais simples: quando perceber a inundação, faça uma pausa de pelo menos vinte minutos, que é o tempo de que o corpo costuma precisar para voltar ao ritmo normal.
Avise a outra pessoa com respeito, algo como “preciso de um tempo para me acalmar, volto daqui a meia hora”, para que a pausa não soe como abandono. Durante esse tempo, ocupe a cabeça com algo que prenda a atenção: uma caminhada ou um banho. Ficar ensaiando a resposta perfeita para a briga mantém o corpo inundado. Depois, volte e retome a conversa com a mente de novo disponível.
Quando as explosões se repetem
Se as explosões são frequentes, vale olhar para o que está por baixo delas. A raiva muitas vezes protege emoções mais difíceis de mostrar, como mágoa ou cansaço acumulado. A psicoterapia oferece um lugar para sentir tudo isso sem julgamento e entender o que tem enchido o seu copo.
A hipnose pode ajudar de um jeito bem prático: em estado de foco, dá para ensaiar mentalmente uma situação que costuma disparar a explosão e experimentar outra resposta, para que o corpo já tenha um caminho conhecido quando a cena real acontecer.
Se as explosões envolvem agressão a alguém, ou se em algum momento surge a vontade de se machucar, procure ajuda profissional o quanto antes.
Toda pessoa sente raiva. O que dá para aprender é o que fazer com ela antes que ela decida por você.
Vamos descobrir juntas o que está travando o seu caminho?
Se você sente que as emoções estão ditando o seu ritmo e quer retomar as rédeas com suavidade, eu adoraria te acompanhar nessa jornada de descoberta.
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Referências bibliográficas
GOLEMAN, D. Inteligência emocional. Rio de Janeiro: Objetiva, 1996.
GOTTMAN, J. M.; SILVER, N. The seven principles for making marriage work. New York: Crown, 1999.






