“Quem você pensa que é para tentar isso?” A frase não vem de ninguém de fora. Ela aparece por dentro, com a sua própria voz, segundos antes de você mandar a proposta ou dizer o que realmente pensa numa conversa.
Essa voz costuma agir em silêncio, e ainda assim deixa marcas em quase tudo. Aparece na dificuldade de dizer não, no hábito de aceitar menos do que você gostaria, na oportunidade deixada para depois e na ansiedade que cresce sempre que alguém pode avaliar o que você fez.
Uma voz aprendida
Carl Rogers, criador da abordagem centrada na pessoa, observou que muitos de nós aprendem cedo a se avaliar pelo olhar dos outros. A criança percebe quando decepciona e o que precisa fazer para ser aceita. Com o tempo, esse olhar de fora se instala por dentro e passa a falar como se fosse a própria pessoa.
A autocrítica, portanto, tem história. Em algum momento, ela tentou proteger você da rejeição, cobrando antes que os outros cobrassem. O problema é que ela continua no posto muito depois de essa proteção ter deixado de ser necessária.
Brigar com a voz costuma deixá-la mais alta
O impulso costuma ser calar a crítica na marra, com frases positivas ou com mais cobrança para “parar de se cobrar”. Na prática, a briga vira mais combustível, e a voz ganha volume justamente quando é combatida.
A psicóloga Kristin Neff, da Universidade do Texas, dedicou a carreira a estudar uma alternativa: a autocompaixão. Para ela, a autocompaixão oferece a mesma proteção contra a autocrítica dura que a autoestima promete, só que sem a exigência de se ver como perfeita ou melhor do que os outros. Ela envolve três movimentos: tratar-se com gentileza nos momentos difíceis, lembrar que errar faz parte da condição humana e reconhecer o que está sentindo sem se afogar nisso.
Um jeito simples de experimentar é pegar a última frase dura que você disse a si mesma e reescrevê-la como diria a uma amiga querida na mesma situação. A diferença de tom entre as duas versões costuma revelar muito sobre o quanto você se exige.
Uma nova relação consigo
Na abordagem centrada na pessoa, a relação terapêutica funciona como um lugar onde você é escutada sem precisar provar nada. Aos poucos, esse jeito de ser acolhida pode virar também um jeito de se acolher.
A hipnose também ajuda aqui. Num estado de foco tranquilo, fica mais fácil experimentar um tom interno diferente, mais firme e mais gentil ao mesmo tempo, e ensaiar como seria encarar um desafio sem aquela voz puxando para baixo.
A ideia é que a voz crítica perca espaço para outra, que também fala por dentro, mas está do seu lado, especialmente nos dias em que as coisas não saem como o planejado.
Vamos descobrir juntas o que está travando o seu caminho?
Se você sente que é o momento de olhar para si com mais carinho e clareza, eu adoraria te acompanhar nessa jornada de descoberta.
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Referências bibliográficas
NEFF, K. Autocompaixão: pare de se torturar e deixe a insegurança pra trás. Teresópolis: Lúcida Letra, 2017.
ROGERS, C. R. Tornar-se pessoa. 6. ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009.






