Uma mensagem do chefe às nove da noite: “Amanhã a gente conversa.” Numa semana tranquila, a frase passaria quase despercebida. Agora, numa semana em que você dormiu mal quatro noites seguidas, ela vira roteiro de demissão antes mesmo de você sair do banho!
O fato é o mesmo, e a leitura dele muda completamente. Essa diferença tem explicação, e ela começa na forma como o cérebro funciona quando está sem reserva.
O cansaço mexe no alarme
Em 2007, a equipe do neurocientista Matthew Walker, na Universidade da Califórnia, pediu a um grupo de jovens saudáveis que ficasse cerca de 35 horas sem dormir. Depois, todos viram imagens que iam de neutras a perturbadoras dentro de um aparelho de ressonância. Nos participantes que não tinham dormido, a amígdala, a região que dispara o alarme diante de ameaças, reagiu mais de 60% acima do normal. Ao mesmo tempo, a comunicação dela com o córtex pré-frontal, que costuma colocar as emoções em contexto, apareceu enfraquecida.
É como deixar uma criança pequena tomando conta da casa sozinha. Qualquer barulho no corredor vira assaltante e qualquer sombra na parede ganha forma de monstro, porque não há ninguém por perto para dizer que era só o vento.
Uma noite ruim já deixa marcas
Anos depois, o mesmo grupo mediu a ansiedade de jovens adultos depois de uma noite inteira sem dormir e encontrou um aumento de cerca de 30% em comparação com uma noite normal de sono. E o dado mais interessante veio de outra parte da pesquisa: mesmo pequenas perdas de sono de uma noite para a outra já anunciavam um dia seguinte mais ansioso.
O mesmo estudo apontou o sono profundo como um calmante natural. Nas noites em que ele aparece em quantidade, o cérebro parece reorganizar as conexões que regulam a ansiedade e acorda menos reativo.
Nem toda ansiedade pede mais controle
Quando a ansiedade aumenta, a reação mais comum é tentar se controlar com mais força: mais respiração e mais disciplina. Só que, com a reserva no fim, essa cobrança pesa como pedir mais uma corrida a quem acabou de terminar uma maratona.
Existe um gesto simples que ajuda a separar as coisas. Antes de acreditar na catástrofe que a cabeça montou, pergunte a si mesma como foram as suas últimas noites. Se a resposta for “mal”, trate aquela interpretação como provisória e deixe a conversa difícil, a decisão importante ou a mensagem que você quer mandar para depois de uma noite de sono. Muita coisa que parecia urgente às dez da noite chega bem menor na manhã seguinte.
Recuperar a reserva
Proteger o sono passa a ser parte do cuidado com a ansiedade. Quando as noites ruins já viraram rotina, existem tratamentos específicos para insônia, como a terapia cognitivo-comportamental para insônia, considerada hoje a primeira escolha para quem dorme mal há meses. E se o cansaço não passa nem com sono, vale investigar se é esgotamento de outra ordem.
A hipnose pode ajudar nas duas pontas. Durante o dia, ela ajuda o corpo a lembrar como é estar calmo, e isso diminui a reatividade. À noite, um estudo da pesquisadora Maren Cordi sugere que sugestões hipnóticas podem aprofundar o sono em pessoas mais responsivas a esse tipo de trabalho.
Às vezes, a ansiedade que parece enorme está sendo amplificada por um corpo que simplesmente precisa dormir.
Leia também: Cansaço que o sono não cura pode ser burnout
Se o sono e a ansiedade andam se alimentando um do outro, veja como a terapia pode ajudar.
Vamos descobrir juntas o que está travando o seu caminho?
Se você sente que a sua mente está sem espaço e o cansaço virou companhia constante, eu adoraria te acompanhar nessa jornada de descoberta.
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Referências bibliográficas
BEN SIMON, E. et al. Overanxious and underslept. Nature Human Behaviour, v. 4, n. 1, p. 100-110, 2020.
CORDI, M. J.; SCHLARB, A. A.; RASCH, B. Deepening sleep by hypnotic suggestion. Sleep, v. 37, n. 6, p. 1143-1152, 2014.
YOO, S.-S. et al. The human emotional brain without sleep: a prefrontal amygdala disconnect. Current Biology, v. 17, n. 20, p. R877-R878, 2007.






