Basta mencionar a palavra hipnose numa primeira conversa para aparecer um meio sorriso desconfiado, quase sempre seguido da mesma pergunta: “mas eu vou ficar desacordada?”
A dúvida faz sentido. Durante décadas, o cinema mostrou o pêndulo balançando e alguém obedecendo ordens sem saber o que fazia. A hipnose clínica tem muito pouco a ver com essa cena.
O que acontece de verdade
A divisão de hipnose da Associação Americana de Psicologia define a hipnose como um estado de consciência com atenção focada, menor percepção do que está ao redor e maior capacidade de responder a sugestões. Em outras palavras, a pessoa fica mais concentrada, e não menos consciente.
Arrisco dizer que você já viveu estados parecidos esta semana. Quando dirigiu por um caminho conhecido e chegou sem lembrar dos detalhes do trajeto, ou quando uma série prendeu tanto a sua atenção que a sala em volta desapareceu. Em nenhum desses momentos você perdeu o controle. A atenção apenas se concentrou num ponto e deixou o resto em segundo plano.
A hipnose usa essa capacidade natural de forma guiada e com um objetivo terapêutico. Durante a sessão, você escuta, percebe o que acontece, pode abrir os olhos quando quiser e deixa de lado qualquer sugestão que não faça sentido para você.
No Brasil, o Conselho Federal de Psicologia reconhece a hipnose como recurso de trabalho do psicólogo desde 2000, exigindo formação adequada e proibindo qualquer uso sensacionalista.
Por que ela ajuda na ansiedade
Boa parte da ansiedade mora em respostas automáticas, como o aperto no peito diante de uma mensagem ou a tensão que chega antes mesmo da reunião começar. Entender de onde vem esse alarme é importante, e muitas vezes ainda assim ele continua tocando.
O psiquiatra americano Milton Erickson via o inconsciente como um reservatório de recursos que a pessoa ainda não aprendeu a usar. Em vez de dar ordens, ele usava histórias e metáforas para conversar com essa parte da mente. Na hipnose, o corpo pode ensaiar outras respostas para situações que hoje disparam o alarme, com a segurança de estar num ambiente protegido.
Os números também ajudam. Quando a equipe de Valentine reuniu, em 2019, os resultados de diversos estudos sobre hipnose e ansiedade, a pessoa média tratada com hipnose terminou o tratamento com menos ansiedade do que cerca de 80% dos participantes dos grupos de comparação.
O que muda depois
Você continua sendo você, e as situações que despertam ansiedade continuam existindo. O que pode mudar é a forma como o corpo responde a elas. A reunião segue sendo uma reunião, e você pode atravessá-la com mais presença. O pensamento assustador ainda aparece, e fica mais fácil observá-lo sem ser arrastada por ele.
Essa mudança de moldura tem nome: ressignificação. A mesma situação ganha outro sentido, e o sistema nervoso aprende que pode ficar atento sem entrar em pânico.
A honestidade sobre os limites
A hipnose é uma ferramenta dentro da psicoterapia e não a substitui. Ela também não resolve sozinha problemas concretos da vida, como uma relação que faz mal ou um trabalho que adoece. E as pessoas respondem a ela em graus diferentes, o que é normal.
Por isso, a primeira conversa serve justamente para entender se a hipnose faz sentido para o seu caso. Quem conduz o processo funciona como guia, e as escolhas continuam sendo suas.
Para saber como a hipnose entra no tratamento, veja como funciona a psicoterapia para ansiedade.
Vamos descobrir juntas o que está travando o seu caminho?
Se você sente que tem curiosidade de experimentar uma forma diferente e profunda de lidar com a ansiedade, eu adoraria te acompanhar nessa jornada de descoberta.
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Referências bibliográficas
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Resolução CFP nº 013, de 20 de dezembro de 2000. Aprova e regulamenta o uso da Hipnose como recurso auxiliar de trabalho do Psicólogo. Brasília, DF: CFP, 2000. Disponível em: https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2000/12/resolucao2000_13.pdf. Acesso em: 06 jul.2025.
ELKINS, G. R. et al. Advancing research and practice: the revised APA Division 30 definition of hypnosis. International Journal of Clinical and Experimental Hypnosis, v. 63, n. 1, p. 1-9, 2015.
HALEY, J. Terapia não-convencional: as técnicas psiquiátricas de Milton H. Erickson. São Paulo: Summus, 1991.
VALENTINE, K. E. et al. The efficacy of hypnosis as a treatment for anxiety: a meta-analysis. International Journal of Clinical and Experimental Hypnosis, v. 67, n. 3, p. 336-363, 2019.






