O que acontece no seu sistema nervoso quando o corpo para mas a cabeça não acompanha.
São 2 da manhã e o seu corpo está cansado, mas sua mente não recebeu a mensagem. Aquela conversa do trabalho volta inteira. A coisa que você deveria ter dito, a lista de pendências que aparece do nada. E quanto mais você tenta dormir, mais consciente fica de que não está dormindo.
Como psicóloga, essa é uma das queixas mais comuns que ouço. Antes que você acredite na sua incapacidade de se controlar, preciso te dizer que seu sistema nervoso está se comportando exatamente como foi programado para se comportar.
Por que a mente acelera justamente quando você quer descansar
Durante o dia, você passa por uma quantidade imensa de experiências emocionais. Engole emoções, adia decisões, coloca tudo de lado porque tem coisas para fazer. Quando a noite chega e o silêncio finalmente acontece, seu cérebro interpreta aquele espaço vazio como a oportunidade que estava esperando para processar tudo o que ficou guardado. Sua mente está tentando fazer o trabalho que você não teve espaço para fazer durante o dia.
Daniel Siegel mostrou que o cérebro funciona em redes diferentes de processamento. Durante o dia, você ativa redes voltadas para as tarefas. À noite, quando não há demanda externa, outra rede se ativa e começa a processar memórias, preocupações, aprendizados. Se você passou o dia sem resolver tensões emocionais reais, elas ganham espaço justamente no momento em que você quer descansar.
Deb Dana, ao aprofundar a Teoria Polivagal na clínica, ajuda a entender outro lado disso: seu sistema nervoso precisa de um sinal concreto de que o dia terminou e que é seguro descansar. Enquanto esse sinal não chega, o sistema de alerta permanece ativo, porque ninguém avisou a ele que você pode soltar.
O que realmente funciona no imediato
Lutar contra os pensamentos só os fortalece, porque a luta em si é mais um sinal de alerta para o sistema nervoso. O que funciona é criar uma transição real entre o dia e a noite e dar ao seu corpo as informações que ele precisa receber para entender que o dia acabou.
Reduzir as luzes uma ou duas horas antes de deitar começa a sinalizar ao cérebro que o dia está terminando. A melatonina responde à luz, e seu ritmo circadiano precisa dessa comunicação física, concreta. Sugiro também que você experimente uma respiração lenta: inspire contando cinco, expire contando sete, durante alguns minutos. Você ativa o nervo vago dessa forma e traz o sistema para fora do modo de alerta de um jeito que a decisão consciente de relaxar jamais conseguiria sozinha.
Quando os pensamentos vierem, não tente afastá-los. Nomeie o que está acontecendo: “isso é preocupação com aquela reunião”, “isso é a lista de amanhã”. Lieberman et al. documentaram que nomear a emoção reduz a ativação da amígdala de forma mensurável. Você tira o volume emocional apenas reconhecendo com clareza o que está presente, sem precisar resolver nada agora.
Essas práticas funcionam bem, especialmente combinadas. Quando a ansiedade noturna é crônica, quando você carrega esse padrão há meses ou anos e ele já está profundamente consolidado no sistema nervoso, técnicas isoladas chegam até um ponto e param.
Onde a hipnose chega
A hipnose ericksoniana trabalha de um jeito diferente de tudo isso. Em foco hipnótico, você acessa os padrões consolidados no sistema nervoso e oferece a ele novas respostas: novas formas de interpretar o silêncio da noite, novas maneiras de processar as tensões do dia sem precisar fazer isso exatamente no momento em que você quer dormir.
É um trabalho com partes suas que aprenderam a ficar em alerta permanente, que desenvolveram a função de proteger você e que agora precisam entender que aquela proteção pode ser modulada. Que você pode estar segura e descansada ao mesmo tempo. Quando alguém te acompanha nesse processo com escuta genuína e técnicas que funcionam no corpo, o descanso para de ser um campo de batalha.
Se você reconhece isso em você
Se sua mente não te dá trégua à noite e o cansaço do corpo não consegue trazer silêncio mental, eu adoraria te acompanhar nessa jornada de descoberta.
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Referências bibliográficas
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders. 5. ed. text rev. Washington: APA, 2022.
DANA, D. A Teoria Polivagal na Terapia. Porto Alegre: Artmed, 2019.
DAMASIO, A. O Erro de Descartes. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
KABAT-ZINN, J. Full Catastrophe Living. New York: Bantam Books, 2013.
LIEBERMAN, M. D. et al. Putting feelings into words. Psychological Science, v. 18, n. 5, p. 421–428, 2007.
SIEGEL, D. J. The Developing Mind. New York: Guilford Press, 2012.
VAN DER KOLK, B. O corpo guarda as marcas. São Paulo: Sextante, 2020.WORLD HEALTH ORGANIZATION. CID-11. Geneva: WHO, 2022.




